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| Bispos - Dom Rey |
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| Escrito por Irmã Aparecida | ||
| Seg, 06 de Junho de 2011 21:49 | ||
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DOM FRANCISCO XAVIER REY TUXÁUA DO GUAPORÉ "O Bispo sem batina"
Dom Francisco Xavier Rey deixou marcas profundas no coração e na vida dos guajaramirenses.
É uma verdadeira alegria evocar sua cativante figura, por ocasião do centenário de seu nascimento. O Papa Pio XI, em 1932, confia a Dom Rey "uma das missões mais duras do mundo", conforme suas próprias palavras. Daniel Rops, da Acadêmia Francesa de Letras, num belo artigo intitulado "O Bispo sem batina", revela a figura incomum de Dom Rey, "admirado, amado e respeitado por todos" Ives Manciet, escritor suíço protestante, declara em seu livro "Amazônia terra inacabada": "Dom Rey é a personalidade mais extraordinária que jamais encontrarei!" Nosso bispo fundador merecerá, um dia, uma bibliografia completa, à altura. Por enquanto, recolhemos o testemunho de duas pessoas que conviveram longamente com ele e podem dar uma palavra autêntica sobre o "Apóstolo do Guaporé". Dom Luiz Gomes de Arruda, TOR, (Dom Roberto), sucessor de Dom Rey, conta, de modo comovente e com a modéstia que o caracteriza, o episódio dramático do contato com os índios pacaás novos (Oro-Waris), em que ele mesmo teve um papel relevante. É verdade que, naquela época, só Dom Rey tinha a autoridade e a força necessárias para se levantar e evitar o massacre total dos primeiros habitantes da região. A professora paulistana Adriana Caravita foi chamada por nosso bispo pioneiro para iniciar, em nossa Diocese, a rica experiência dos voluntários missionários. Adriana permaneceu 20 anos em Guajará-Mirim, quando Dom Rey estava no auge de sua vitalidade e de seu dinamismo missionário. Agradeço de coração a dom Roberto e a Adriana, pelo vibrante depoimento deixado neste livreto: "DOM REY, FORÇA DE LEÃO E CORAÇÃO DE CRIANÇA". Tenho certeza de que estas páginas, escritas com amor, despertarão saudades no coração dos que tiveram o privilégio de conhecer Dom Rey. E todos os que as lerem receberão faíscas de fé, de coragem e de entusiasmo pelo Reino, comunicados pelo nosso saudoso "Tuxáua" Dom Rey.
ABERTURA AOS LEIGOS MISSIONÁRIOS Um dos pontos angustiantes para Dom Rey era o futuro da sua ação missionária na Prelazia de Guajará-Mirim. Como garantir um prosseguimento sério e organizado dos trabalhos e das iniciativas lançadas? Daí o seu esforço na preparação de uma equipe missionária com a qual pudesse contar para garantir a continuidade das atividades de atendimento ao povo. Nesse sentido de trabalho missionário, Dom Rey investiu o melhor dos seus esforços e, até acordado, sonhava com a fundação de um Instituto de Missionárias para a Prelazia. Era esse o sonho que iluminava os dias e as noites de Dom Rey. Sonho tão novo e necessário que a Igreja o valorizou, após o Concílio Vaticano II, através dos institutos seculares. Mesmo sem poder realizar o sonho da fundação, Dom Rey deixou as marcas de seu profundo amor a Deus e ao Reino em vários corações missionários...
A MISSÃO JUNTO AOS ÍNDIOS Dom Rey dizia que a Prelazia de Guajará-Mirim foi criada para a “evangelização dos índios”. Temos que nos lembrar que na época da criação da Prelazia estávamos longe dessa “invasão” de colonos que hoje aí temos. O atual Estado de Rondônia, naquele momento “Norte de Mato Grosso”, era uma imensa floresta com grandes tribos indígenas, poucas delas em contato com o resto da população. Não podemos também esquecer que as matas nos arredores de Guajará-Mirim e no alto Guaporé são ricas em seringueiras. A guerra na Europa elevou o preço e a procura de seringa. Numerosos seringalistas instalaram seus trabalhos de extração nas melhores matas e para lá mandaram os seus operários. Até o Governo Federal enviou para a região os “soldados da borracha” e a ocupação era confiada aos seringalistas que deviam também protegê-los contra os perigos da floresta. Mas as áreas de seringais eram exatamente as terras, desde séculos, ocupadas e habitadas pelos índios. Daí o conflito permanente. Daí o “direito do mais forte”! Os índios não dispunham de radio nem jornal para denunciar as invasões e as violências lá praticadas contra eles. Os invasores utilizavam armas sofisticadas, até metralhadoras... A cada protesto, aldeias inteiras desapareciam... A cidade de Guajará-Mirim, ainda em 1960, estava praticamente no centro da tribo que era então chamada dos PACAÁS NOVOS. À noite, os índios chegavam até às ruas da cidade. Durante o dia, vigiavam as estradas da vizinhança. Os colonos, apavorados e ignorando os massacres sofridos pelos índios, refugiavam-se na cidade ou no Núcleo do Iata, uma colônia agrícola. Em 8 de dezembro de 1960, na estrada que ligava Guajará-Mirim ao Iata, a morte de um jovem pelos índios determinou uma reação decisiva: um grupo de homens armou-se e ia partir para as matas com o compromisso de ninguém voltar sem a certeza de ter liquidado o último índio da região. Dom Rey interveio. Recorreu ao Governo do então Território de Rondônia que mandou para Guajará-Mirim um funcionário do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), para tentar um contato pacífico com os pacaás novos. Não conseguindo resultado, o enviado do Governo desistiu. Sabendo que essa tentativa era motivada pelo pedido do bispo, o responsável foi até a Prelazia comunicar a Dom Rey a sua decisão. Dom Rey escutou. Em seguida, reuniu todos os padres e pessoas presentes na Prelazia. Pediu ao funcionário que explicasse ao grupo tudo o que havia lhe comunicado. Terminada a exposição, Dom Rey, em pé, revoltado, rubro de raiva, voltado para o grupo disse: “Estão vendo? A vida dos índios não interessa nem ao Governo, nem ao SPI, nem à autoridade alguma. Os índios estão condenados ao extermínio completo. É um genocídio. É iníquo! É crime! A Prelazia não pode concordar, nunca vai concordar com tal decisão. Nós assumimos a missão de conseguir a paz com esses índios. O pretexto apresentado é falta de dinheiro. Vamos então vender esta casa, vender essa Igreja. Vendemos tudo!... Temos que salvar esse povo! Concordam vocês com essa decisão? Todos os presentes bateram palmas à decisão do bispo. A partir daquele momento, as atividades da Prelazia e de todos os seus membros voltaram-se para o contato pacífico com os povos indígenas. Dom Rey designou frei Roberto (frade da Terceira Ordem Regular de São Francisco e sucessor de Dom Rey em 1966) como enviado da Prelazia. Depois de andanças pelas matas e pelos rios Pacaás Novos, Negro e Ocaia, com enormes sacrifícios em meio a indizíveis perigos da floresta e de toda sorte de privações, no dia 26 de junho de 1961, houve o primeiro contato. No dia 28 do mesmo mês, foi acertada a paz definitiva. O cacique Dumatoji, acompanhado de um grupo de índios, chegou ao acampamento onde foram acolhidos por frei Roberto e seus companheiros. Depois de uma noite de vigília e negociações, a paz ficou estabelecida entre todos.
A PRELAZIA É PROIBIDA DE TRATAR OS ÍNDIOS DOENTES Feito o contato com os índios, consolidada a paz, multiplicam-se as visitas dos “não índios” às populações indígenas... A gripe logo invadiu todos os postos do SPI, seguida depois pela malária, sarampo, hepatite, tuberculose. Multiplicavam-se as mortes. Acabava de chegar á Prelazia, o médico, padre João Bernardo Pierrot, entusiasta para tratamento de pobres e, sobretudo, dos índios doentes. Foi o dedo da Providência: a cada chamada de uma aldeia invadida pela doença, o padre médico e frei Roberto preparavam caixas de medicamentos e de alimentos, pois a fome imperava nas aldeias e nos postos. Ora de trem, ora de jipe ou de barco, partiam em socorro do grupo necessitado, apesar da proibição da entrada de pessoas da Prelazia em áreas indígenas... O interesse de Dom Rey era cuidar dos índios necessitados que não podiam ficar abandonados, doentes, famintos e morrendo. Claro está que, nesses momentos, não iam pedir licença do Governo para dar socorro a todo um grupo que estava morrendo.
NASCE SAGARANA PARA TRATAR DOS DOENTES Na margem direita do Guaporé, numa baía então conhecida como "Baía da Coca", a cerca de 5 quilômetros de sua foz, no dia 17 de novembro de 1965, pelas 7 horas da manhã, debaixo de uma chuvinha persistente, desembarcaram 20 índios (homens, mulheres e crianças), orientados pelo Frei Roberto. Naquele momento, nascia um povoado indígena destinado ao tratamento de saúde. Como isso se realizava ao lado da Bolívia, o povoado foi logo reconhecido e registrado na Faixa de Fronteira por ordem do coronel Tosta, então presidente do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), com o nome de "Grupo de Recuperação do Elemento Humano". Só mais tarde recebeu o nome de Sagarana, oficializado hoje como "Associação Indígena Sagarana". Dom Rey esteve várias vezes ali. Gostou, abençoou, deu sua aprovação e doou as terras pertencentes à Prelazia à comunidade, como "reserva´indígena". Sagarana evoluiu, cresceu, organizou-se. Hoje, o povoado conta com cerca de 60 famílias. Tem sua administração própria, exercida por um administrador da comunidade, eleito pelo seu povo (única comunidade indígena nessas condições, na região). Tem sua escola com professores da comunidade. Tem seu Posto de Saúde, servido por 4 enfermeiros indígenas da própria comunidade, preparados através de cursos teóricos e práticos com estágios em hospitais. Tanto é que a saúde do povo é das melhores da região. Possui, ainda, uma escola de corte e costura para mulheres e moças. Mantém uma cooperativa de consumo sempre abastecida a serviço da comunidade. Tem um belo lote de vacas leiteiras, garantindo o leite fresquinho para as crianças. Um bom lote de carneiros e ovelhas enfeita os pastos e fornece deliciosos churrascos para os dias de festa. Através de mutirões, a comunidade mantém uma pastagem limpa e em boas condições com cerca de 1.000 hectares. Cada família tem sua casa, sua roça, seus plantios próprios para uma sobrevivência digna e tranqüila. Duas professoras indígenas estão em Guajará-Mirim fazendo faculdade de Pedagogia e preparando-se para assumir a orientação da educação em Sagarana, segundo os modelos da cultura do povo oro-wari. A comunidade dispõe ainda de meios de transportes próprios: uma lancha de porte médio, 3 voadeiras, sendo uma equipada para atendimento exclusivo à saúde; cada família tem a sua, ou suas canoas, para pescarias ou pequenas viagens e há um trator com todos os implementos para dinamizar a agricultura. Uma camioneta para transporte, uma motocicleta para o atendimento rápido na comunidade, várias bicicletas, quer para ida à escola em Surpresa, quer para ida à roça; servido de rádio-comunicação para o contato com Guajará-Mirim ou com os Postos de Serviço Indígenas; a eletrificação rural garante luz e energia, vindas da vila de Surpresa. Tudo isso devemos à visão, fé e arrojo de Dom Rey!
AGRADECIMENTOS A Diocese de Guajará-Mirim agradece de coração à professora Adriana Caravita e a Dom Luiz Gomes pela riqueza do depoimento expresso através do livro Dom Rey "Força de Leão Coração de Criança" por ocasião do centenário de seu nascimento.
1902 - 2002 |
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| Última atualização em Sáb, 14 de Abril de 2012 11:42 |




