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Bispos - Dom Roberto PDF Imprimir E-mail
Diocese
Escrito por Irmã Aparecida   
Seg, 06 de Junho de 2011 22:33

Dom Roberto: Um testemunho de amor

Dom Luiz Gomes de Arruda, o nosso Dom Roberto, nasceu no dia 21 de junho de 1914 em Bela Vista, interior do município de Cáceres - MT. Filho de José Gomes Arruda e de Antônia Inocência de Arruda. Seu pai era descendente de migrante paulista, que veio para o garimpo do Coxipó do Ouro, hoje Cuibá. Um dos ancestrais da família, insatisfeito com o garimpo, retirou-se e instalou-se no meio dos índios Guató, no Pantanal de Poconé. Mais tarde, um dos bisnetos, José, migrou para Cáceres. Dai para a área rural, onde se casou com Dona Antônia, descendente da Tribo Guató. Povo atualmente destribalizado e espalhado pelo Brasil. Seu padrinho de batismo foi Santiago de Paula e Cunha e a madrinha Maria Pedrosa da Cunha. O padrinho de crisma foi Benedito Claro da Silva.

Em 1929 - O Bispo, Dom Luiz Maria Galibert o leva para Cáceres. Nesta época ele estava com 15 anos completos.

Em 1930 - Viajou com Dom Galibert, primeiro bispo de Cáceres, nas desobrigas. Contraiu malária "Falcíparum" em Vila Bela. Julião, homem generoso mas um tanto violento, é o único a ter medicamentos em Vila Bela. Ele recebe tratamento, melhora da malária e regressa a Cáceres. Ainda em 1930, chega em Cáceres uma leva de novos missionários, entre eles o frei Salvador Rouquette. Frei Ambrósio Daydé, iniciador da presença da TOR no Brasil, em Cuiabá, naquele momento Superior da Missão, confia a frei Salvador o início da alfabetização de Dom Roberto.

Em 1931 - Enviam-no a Poconé, com os vocacionados.

Em 1932 - Segue com o grupo de vocacionados para o Seminário de São Paulo, no bairro do Sumaré, sob a orientação do frei Inácio Gau e de frei Henrique Maynadier, Diretores e Professores. Com eles inauguram o novo Seminário e o curso médio, com a casa ainda em arremates de construção.

Entre os anos 1932/33/34/35 - Prossegue no curso secundário com os programas nacionais. Animava-se muito com as alegres visitas do Conde José Vicente de Azevedo, doador do terreno e do primeiro prédio do Seminário, no Sumaré. Era ele apaixonado pela música. Equipados com um pequeno harmônio e flautas, os seminaristas formavam com ele agradáveis sessões musicais recreativas.

Em 1935 - Segue para a França, em Ambialet. Como aqui, Dom Roberto, não tinha estudado a língua grega, exigida para os exames na Faculdade de Tolosa, teve que reiniciar parte do curso secundário, adicionando grego, espanhol e, naturalmente, o francês.

Nos 1938-39 - Noviciado em La Drèche. A guerra o fez passar por vários mestres de noviços. Ainda em 1939, faz sua Profissão temporária e inicia a Filosofia.


Entre os anos 1940-41-42 - Em Ambialet: Estuda Filosofia e Teologia integradas, juntamente com o Seminário de Saint Dier (cidade fronteira com a Alemanha), com alunos e professores refugiados em Ambialet por causa da guerra. Em 1942 - (final do ano) Volta para o Brasil e termina os estudos de Teologia com o Bispo de Cáceres.

Em 1944 - Faz os Votos perpétuos, em Cáceres.

Em 1945 - (início do ano) Recebe o Diaconato, em Cáceres.

Em 1945 - (29 de junho de 1945) Recebe o Presbiterato, em Poconé.

Entre os anos 1946/47/48 - Realiza várias viagens missionárias (substituindo Dom Galibert nas desobrigas a cavalo, em canoas... na época em Cáceres não havia automóveis nem estradas)

Em 1949 - É enviado a Poconé, para a formação dos vocacionados no lugar de Frei Antonio da Costa que vai então a Mogi Mirim e dá início à construção do Seminário da TOR (Seminário Nossa Sra. de Fátima).

Em 1950 (início do ano) Chega em Mogi Mirim. Segue logo para Santa Catarina para recrutamento vocacional. Trabalho este renovado em cada período de férias, tanto em Santa Catarina como em Minas Gerais.

Em 1960 - O Conselho Geral da TOR destaca o Comissariado Brasileiro dependente da Cúria Geral, com sede em Mogi Mirim e como comissário Frei Roberto. Fica o Comissariado responsável pelo seminário de Mogi Mirim e pela missão em Guajará Mirim - RO. Ainda em 1960 - de agosto a setembro: - faz uma visita a Guajará Mirim. Constata que vários padres estavam doentes.

Em 1961- (janeiro)- Com o frei José Vieira de Lima, jovem, recém ordenado, chega de surpresa em Guajará Mirim. Retira os doentes para Mogi Mirim. Fica com Frei José uns meses para ele poder assumir as várias tarefas dos que se retiram.

- Ainda em 1961 (maio) Participação na solução do conflito entre o povo Pacaa-novos envolvendo a cidade de Guajará Mirim. São vários grupos da mesma Tribo e ocupam, na época, todas as matas próxima da cidade. As regiões por eles habitadas são das mais ricas em seringais nativos e são invadidas por seringalistas e seringueiros. Dai violentos conflitos e massacres nas aldeias indígenas. Os índios só têm flechas contra rifles, fuzis e metralhadoras. Naquele momento a tribo toda se vê condenada a um extermínio completo. No dia 8 de dezembro de 1961, os índios, no auge da irritação frente aos ataques e massacres contra eles, flecham e matam um jovem na estrada entre Guajará e o Núcleo Agrícola do Iáta. É a gota final. Em Guajará, um grupo de homens se arma e vai partir para as matas com o compromisso de ninguém voltar enquanto os expedicionários não tiverem certeza de ter liquidado o último índio dessas matas. O Bispo Dom Rey intervém e pede que esperem até que ele possa tratar o assunto com o Governador do então Território de Rondônia. Este envia até Guajará um funcionário do SPI, o sr. Fernando Cruz que, de início, nada consegue e  retira-se. Dom Rey então, juntamente com os frades presentes, decide assumir a missão de salvar o povo Pacaa-Novos e conseguir a paz. Fernando Cruz aceita trabalhar com a Prelazia. Dom Rey nomeia e envia o frei Roberto como representante da Prelazia nessa importante e vital missão. Em (28 de junho) consegue o contato e a paz para os índios e para os “não índios”. Foi imensa a alegria para os indígenas e para todo o povo de Guajará, das colônias e dos seringais da região.

Em 1962 - No início do ano chega à Prelazia um Padre lituano, Ferdinando Alexandre Bendoraitis, médico, entusiasmado pela missão com os índios. Penetram e espalham-se pelas aldeias indígenas a gripe, o sarampo, a tuberculose, além da malária e suas seqüelas. Sem atendimento suficiente pelo SPI, as aldeias atacadas pelas doenças, pedem socorro à Prelazia. O padre Bendoraitis e Dom Roberto, a cada chamado, preparavam caixas de medicamentos e alimentos (um dos motivos de doença era a fome) e, ora pelos rios, ora pelo trem (que ainda funcionava), ora com um jeepinho velho, corriam à aldeia necessitada, lá permaneciam oito ou dez dias ou mais, o tempo necessário para levantar todos os doentes e voltavam a Guajará. Por vezes, ao chegar de uma aldeia, uma outra já estava chamando. Isso fez com que, em poucos meses, todas as aldeias, postos e grupos indígenas no então município de Guajará Mirim fossem visitados. Pelo fato mesmo, nasce e cresce a amizade e confiança dos índios para com o pessoal da Prelazia. Em conseqüência dessa confiança, os doentes isolados se decidem a vir diretamente à Prelazia pedir ajuda. São muitos e não se dispunha de local e espaço para atendê-los de modo conveniente. Não tínhamos ainda o Hospital. Dom Roberto começa então a escrever e solicitar do SPI em Brasília, a necessária autorização para instalar um posto de atendimento à saúde em uma das reservas indígenas. Sem sucesso.

Em 1964 - Dom Roberto é nomeado prelado coadjutor de Guajará Mirim, com direito a sucessão.

Em 1965 (17 de novembro de 1965), fundação de Sagarana para tratamento de índios doentes. Às 07 da manhã, sob uma chuvinha persistente, Dom Roberto mesmo desembarca na margem direita da então chamada Baia da Coca ( Coca é uma árvore de folhas perfumadas e procuradas pelos moradores do lugar para fazer chá contra a febre), hoje Baía de Sagarana. Era tudo alta floresta, a 250 quilômetros de Guajará. Com ele desembarcam 20 índios doentes, homens, mulheres e crianças. Inicia-se imediatamente a construção de abrigos, cobertos e fechados com folhas de palmeira.

Em 1966 (15 de agosto de 1966) - Dom Roberto é ordenado bispo em Mogi Mirim. Em (setembro) - toma posse como bispo de Guajará Mirim.

Em 1970 comunica à Nunciatura o plano atualizado de pastoral da Prelazia e que a aplicação desse projeto será acompanhada por ele mesmo até o final do ano de 1978.

1ªetapa: treinamento de líderes e organização de comunidades eclesiais de base (CEB's).

2ª etapa: Comprometimento dos leigos na ação evangelizadora e expansão da ação comunitária, CEBs.

Em 1978 - No dia 08 de dezembro de 1978, realiza-se os festejos programados das comunidades de base em Guajará. No mesmo dia, à noite, Dom Roberto passa a administração da Prelazia ao Vigário Geral, o então Padre Geraldo Verdier.

Em 1979 - Logo em seguida retira-se para o Colorado do Oeste, sul da Prelazia, que está então em seus primeiros passos. Lá assume as tarefas de missionário ambulante. Muito trabalho pelo interior. Viagens a pé, pelas picadas, com o "cacaio", isto é, uma mochila improvisada que se carregava nas costas. O único centro urbano planejado e em vias de instalação era o Colorado do Oeste. O INCRA - (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) estava então demarcando os lotes e instalando as famílias de migrantes.

- Programa e realiza treinamentos em todos os grupos de colonos e preparação de líderes para assumir a evangelização nas comunidades, organização e acompanhamento das comunidades, CEBs. Para isso ele mesmo tinha que passar o tempo nas estradas, assessorando os nossos Grupos Comunitários. Não dispunha de carro, nem estrada havia. Era a pé mesmo, pelas "picadas".

Entre os 1979 a 1983 - Com a ajuda do frei Luiz dos Reis Pacheco, o primeiro pároco de Colorado, e com o valente apoio do Bispo Dom Geraldo, lá realiza-se uma ação eclesial importante que prossegue até hoje, e o povo se declara ainda saudoso desses encontros.

Em 1983 (final do ano), Dom Geraldo Verdier o chama a Guajará para assumir a preparação dos índios de Sagarana que pedem o Batismo.

Em 1984 - Assume Sagarana e lá viveu até sua morte. Dizia ele: "Nessa Missão com os companheiros e irmãos índios, pretendo continuar enquanto Deus mo permitir".

NO RIO GUAPORÉ, O ADEUS A UM LUTADOR INCANSÁVEL

Surpresa. Amanhecia como se apenas fosse um dia a se perder na imensidão da floresta e da água. O rio Guaporé recolhia as águas das chuvas, alimentando a vida que acolhe, rega e carrega. Na sua beira algumas humildes casas. Uma delas abrigará D. Roberto em seu último sono à beira do rio, em meio à sua gente que durante décadas tanto amou.

Acordou. Sentiu a pressão alterando. E se apagou. Era 6 de dezembro pelas 6 horas da manhã. Foi a derradeira viagem desse lutador, no local que ele ajudou a fundar, ao lado da terra dos índios Wari (Pakas Nova) que ele ajudou salvar de epidemias e tão profundamente amou. Será entre eles, em Sagarana, que irá descansar de tantas lutas, em seus 89 anos de existência.

Um dia especial em Surpresa. Dia final e dia inicial. Dia de luto, memória das lutas, e de esperança. Ali viera descansar um guerreiro da paz e da vida. Um bispo, um homem simples do povo, um servidor, um arauto da justiça e do amor.

Conheci D. Roberto em 1972, quando fui trabalhar na então Prelazia de Guajará Mirim. Ele havia solicitado no meio da década de setenta, voluntários da Opart (Operação Anchieta) para apoiarem os Wari salvos de uma epidemia alguns anos antes, e levados para o local que ficou conhecido como Sagarana, na beira da Bahia da Coca, no rio Guaporé, Rondônia.

Impressionou-me sobremaneira a sua maneira simples de viver, conviver e testemunhar sua missão a serviço daquele povo sofrido. Sabia ser um deles entre eles. Seja pedalando em sua bicicleta sob o sol causticante, seja partilhando da vida nos casebres, alimentando a esperança, inspirando coragem, consciência e fé.


Ele amou profundamente essa região e sua gente. E em especial os índios. A eles dedicou o melhor de suas forças, até o último dia de sua vida, que passara com eles em Sagarana. Merecidamente irá entre eles repousar, qual guerreiro que combateu o bom combate e terminou sua carreira, à beira do Guaporé.

Em nome de todos os missionários que lutam junto aos povos indígenas neste país, através do Cimo, queremos externar nosso profundo reconhecimento a esse nosso irmão maior no testemunho e na fé, e a todos os amigos e companheiros da diocese de Guajará Mirim que continuam a obra através da presença e apoio solidário aos povos indígenas e toda a população ribeirinha e das cidades da região.


Em especial aos Wari queremos externar nossa solidariedade por perderem um grande amigo, mas que com eles ficará no testemunho e na memória de todos os que trabalharam e continuarão trabalhando com eles.

Em nome da Presidência do Cimi.

Egon D. Heck

Última atualização em Sáb, 14 de Abril de 2012 11:38