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Dom
Roberto: Um testemunho de amor
Dom
Luiz Gomes de Arruda, o nosso Dom Roberto,
nasceu
no dia 21 de junho de 1914 em Bela Vista,
interior do município
de Cáceres - MT. Filho de José Gomes
Arruda e de Antônia
Inocência de Arruda.
Seu pai era descendente de migrante paulista, que veio para o garimpo do Coxipó do Ouro, hoje Cuibá.
Um dos ancestrais da família,
insatisfeito com o garimpo, retirou-se e instalou-se no meio dos índios Guató, no Pantanal de Poconé.
Mais tarde, um dos bisnetos, José, migrou para Cáceres. Dai para a área
rural, onde se casou com Dona Antônia, descendente da Tribo Guató. Povo
atualmente destribalizado e espalhado pelo Brasil. Seu padrinho de batismo
foi Santiago de Paula e Cunha e a madrinha Maria Pedrosa da Cunha. O
padrinho de crisma foi Benedito Claro da Silva.
Em 1929 - O Bispo, Dom Luiz Maria Galibert
o leva para Cáceres. Nesta época ele estava com 15
anos completos.
Em 1930 - Viajou com Dom Galibert, primeiro bispo de Cáceres, nas
desobrigas. Contraiu malária "Falcíparum" em Vila Bela. Julião, homem
generoso mas um tanto violento, é o único a ter medicamentos em Vila Bela.
Ele recebe tratamento, melhora da malária e regressa a Cáceres. Ainda em
1930, chega em Cáceres uma leva de novos missionários, entre eles o
frei Salvador Rouquette. Frei Ambrósio Daydé, iniciador da presença da TOR
no Brasil, em Cuiabá, naquele momento Superior da Missão, confia a frei
Salvador o início da alfabetização de Dom Roberto.
Em 1931 - Enviam-no a Poconé, com os vocacionados.
Em 1932 - Segue com o grupo de vocacionados para o Seminário de São Paulo,
no bairro do Sumaré, sob a orientação do frei Inácio Gau e de frei
Henrique Maynadier, Diretores e Professores. Com eles inauguram o novo
Seminário e o curso médio, com a casa ainda em arremates de construção.
Entre os anos 1932/33/34/35 - Prossegue no curso secundário com os programas
nacionais. Animava-se muito com as alegres visitas do Conde José Vicente de
Azevedo, doador do terreno e do primeiro prédio do Seminário, no Sumaré. Era ele apaixonado pela música. Equipados com um pequeno harmônio e
flautas, os seminaristas formavam com ele agradáveis sessões musicais recreativas.
Em 1935 - Segue para a França, em Ambialet. Como aqui, Dom Roberto, não
tinha estudado a língua grega, exigida para os exames
na Faculdade de Tolosa, teve que reiniciar parte do curso secundário,
adicionando grego, espanhol e, naturalmente, o francês.
Nos 1938-39 - Noviciado em La Drèche. A guerra o fez passar por vários
mestres de noviços. Ainda em 1939, faz sua Profissão temporária e inicia a Filosofia.
Entre os anos 1940-41-42 - Em Ambialet: Estuda Filosofia e Teologia integradas, juntamente
com o Seminário de Saint Dier (cidade fronteira com a Alemanha), com
alunos e professores
refugiados em Ambialet por causa da guerra. Em 1942 - (final do ano) Volta
para o Brasil e termina os estudos de Teologia com o Bispo de Cáceres.
Em 1944 - Faz os Votos perpétuos, em Cáceres.
Em 1945 - (início do ano) Recebe o Diaconato, em Cáceres.
Em 1945 - (29 de junho de 1945) Recebe o Presbiterato, em Poconé.
Entre os anos 1946/47/48 - Realiza várias viagens missionárias (substituindo Dom Galibert
nas desobrigas a cavalo, em canoas... na época em Cáceres não havia
automóveis nem estradas)
Em 1949 - É enviado a Poconé, para a formação dos vocacionados no lugar
de Frei Antonio da Costa que vai então a Mogi Mirim e dá início à
construção do Seminário da TOR (Seminário Nossa Sra. de Fátima).
Em 1950 (início do ano) Chega em Mogi Mirim. Segue logo para Santa Catarina
para recrutamento vocacional. Trabalho este renovado em cada período de
férias, tanto em Santa Catarina como em Minas Gerais.
Em 1960 - O
Conselho Geral da TOR destaca o Comissariado Brasileiro dependente da
Cúria Geral, com sede em Mogi Mirim e como comissário Frei Roberto. Fica o
Comissariado responsável pelo seminário de Mogi Mirim e pela missão em Guajará Mirim - RO.
Ainda em 1960 - de agosto a setembro: - faz uma visita a Guajará Mirim. Constata
que
vários padres estavam doentes.
Em 1961- (janeiro)- Com o frei José Vieira de Lima, jovem, recém ordenado,
chega de surpresa em Guajará Mirim. Retira os doentes para Mogi
Mirim. Fica com Frei José uns meses para ele poder assumir as várias
tarefas dos que se retiram.
- Ainda em 1961 (maio) Participação na solução do conflito entre o povo Pacaa-novos envolvendo
a cidade de Guajará
Mirim. São vários grupos da mesma Tribo e ocupam, na época, todas as matas
próxima da cidade. As regiões por eles habitadas são das mais ricas em
seringais nativos e são invadidas por seringalistas e seringueiros. Dai
violentos conflitos e massacres nas aldeias indígenas. Os índios só têm
flechas contra rifles, fuzis e metralhadoras. Naquele momento a tribo toda
se vê condenada
a um extermínio completo. No dia 8 de dezembro de 1961, os índios, no auge da irritação frente aos
ataques e massacres contra eles, flecham e matam um jovem na estrada entre Guajará e o Núcleo Agrícola do Iáta. É a gota final. Em Guajará, um grupo de homens se arma e vai partir para as matas com o
compromisso de ninguém voltar enquanto os expedicionários não tiverem
certeza de ter liquidado o último índio dessas matas. O Bispo Dom Rey intervém e pede que esperem até que ele possa tratar o
assunto com o Governador do então Território de Rondônia. Este envia até
Guajará um funcionário do SPI, o sr. Fernando Cruz que, de início, nada
consegue e retira-se. Dom Rey então, juntamente com os frades presentes, decide assumir a
missão de salvar o povo Pacaa-Novos e conseguir a paz. Fernando Cruz
aceita trabalhar com a Prelazia. Dom Rey nomeia e envia o frei Roberto
como representante da Prelazia nessa importante e vital missão. Em (28 de junho)
consegue o contato e a paz para os índios e para
os “não índios”. Foi imensa a alegria para os indígenas e para todo o povo
de Guajará, das colônias e dos seringais da região.
Em 1962 - No início do ano chega à Prelazia um Padre lituano, Ferdinando
Alexandre Bendoraitis, médico, entusiasmado pela missão com os índios. Penetram e espalham-se pelas aldeias indígenas a gripe, o
sarampo, a tuberculose, além da malária e suas seqüelas.
Sem atendimento suficiente pelo SPI, as aldeias atacadas pelas doenças,
pedem socorro à Prelazia. O padre Bendoraitis e Dom Roberto, a cada chamado,
preparavam caixas de medicamentos e alimentos (um dos motivos de doença
era
a fome) e, ora pelos rios, ora pelo
trem (que ainda funcionava), ora com um jeepinho velho, corriam à aldeia
necessitada, lá permaneciam oito ou dez dias ou mais, o tempo necessário
para levantar todos os doentes e voltavam a Guajará.
Por vezes, ao chegar de uma aldeia, uma outra já estava chamando. Isso fez
com que, em poucos meses, todas as aldeias, postos e grupos
indígenas no então município de Guajará Mirim fossem visitados. Pelo fato mesmo, nasce e
cresce a amizade e confiança dos índios para com o pessoal da Prelazia. Em
conseqüência dessa confiança, os doentes isolados se decidem a vir
diretamente à Prelazia pedir ajuda. São muitos e não se dispunha de local e
espaço para atendê-los de modo conveniente. Não tínhamos ainda o Hospital.
Dom Roberto começa então a escrever e solicitar do SPI em Brasília, a necessária
autorização para instalar um posto de atendimento à saúde em uma das
reservas indígenas. Sem sucesso.
Em 1964 - Dom Roberto é nomeado prelado coadjutor de Guajará Mirim, com direito a
sucessão.
Em 1965 (17 de novembro de 1965), fundação de Sagarana para tratamento de
índios doentes. Às 07 da manhã, sob uma
chuvinha persistente, Dom Roberto mesmo desembarca na margem direita da então
chamada Baia da Coca ( Coca é uma árvore de folhas perfumadas e procuradas
pelos
moradores do lugar para fazer chá contra a febre), hoje Baía de Sagarana.
Era tudo alta floresta, a 250 quilômetros de Guajará. Com ele desembarcam
20 índios doentes, homens, mulheres e crianças. Inicia-se imediatamente a
construção de abrigos, cobertos e fechados com folhas de palmeira.
Em 1966 (15 de agosto de 1966) - Dom Roberto é ordenado bispo em Mogi Mirim.
Em (setembro) - toma posse como bispo de Guajará Mirim.
Em 1970 comunica à Nunciatura o plano atualizado de pastoral da Prelazia e
que a aplicação desse projeto será acompanhada por ele mesmo até o final
do ano de 1978.
1ªetapa: treinamento de líderes e organização de comunidades eclesiais de
base (CEB's).
2ª etapa:
Comprometimento dos leigos na ação evangelizadora e expansão da ação
comunitária, CEBs.
Em 1978 - No dia 08 de dezembro de 1978, realiza-se os festejos programados das
comunidades de base em Guajará.
No mesmo dia, à noite, Dom Roberto passa a
administração da Prelazia ao Vigário Geral, o então Padre Geraldo Verdier.
Em 1979 - Logo em seguida retira-se para o Colorado do Oeste, sul da
Prelazia, que está então em seus primeiros passos. Lá assume as tarefas de
missionário ambulante. Muito trabalho pelo interior. Viagens a pé, pelas
picadas, com o "cacaio", isto é, uma mochila improvisada que se
carregava nas costas. O único centro
urbano planejado e em vias de instalação era o Colorado do Oeste. O INCRA
- (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) estava então
demarcando os lotes e instalando as famílias de migrantes.
- Programa e realiza treinamentos em todos os grupos de
colonos e preparação de líderes para assumir a evangelização nas
comunidades, organização e acompanhamento das comunidades, CEBs. Para isso
ele mesmo tinha que passar o tempo nas estradas, assessorando os nossos
Grupos Comunitários. Não dispunha de carro, nem estrada havia. Era a pé
mesmo, pelas "picadas".
Entre os 1979 a 1983 - Com a ajuda do frei Luiz dos Reis Pacheco, o primeiro
pároco de Colorado, e com o valente apoio do Bispo Dom Geraldo, lá
realiza-se uma ação eclesial importante que prossegue até hoje, e o povo
se declara ainda saudoso desses encontros.
Em 1983 (final do ano), Dom Geraldo Verdier o chama a Guajará para assumir
a preparação dos índios de Sagarana que pedem o Batismo.
Em 1984 - Assume Sagarana e lá viveu até sua morte. Dizia ele: "Nessa
Missão com os companheiros e irmãos índios, pretendo continuar enquanto
Deus mo permitir".
NO RIO GUAPORÉ,
O
ADEUS A UM LUTADOR INCANSÁVEL
Surpresa. Amanhecia como se apenas fosse um dia a se perder na imensidão
da floresta e da água. O rio Guaporé recolhia as águas das chuvas,
alimentando a vida que acolhe, rega e carrega. Na sua beira algumas
humildes casas. Uma delas abrigará D. Roberto em seu último sono à beira
do rio, em meio à sua gente que durante décadas tanto amou.
Acordou. Sentiu a pressão alterando. E se apagou. Era 6 de dezembro pelas
6 horas da manhã. Foi a derradeira viagem desse lutador, no local que ele
ajudou a fundar, ao lado da terra dos índios Wari (Pakas Nova) que ele
ajudou salvar de epidemias e tão profundamente amou. Será entre eles, em
Sagarana, que irá descansar de tantas lutas, em seus 89 anos de
existência.
Um dia especial em Surpresa. Dia final e dia inicial. Dia de luto, memória
das lutas, e de esperança. Ali viera descansar um guerreiro da paz e da
vida. Um bispo, um homem simples do povo, um servidor, um arauto da
justiça e do amor.
Conheci D. Roberto em 1972, quando fui trabalhar na
então Prelazia de Guajará Mirim. Ele havia solicitado no meio da década de
setenta, voluntários da Opart (Operação Anchieta) para apoiarem os Wari
salvos de uma epidemia alguns anos antes, e levados para o local que ficou
conhecido como Sagarana, na beira da Bahia da Coca, no rio Guaporé,
Rondônia.
Impressionou-me sobremaneira a sua maneira simples de viver,
conviver e testemunhar sua missão a serviço daquele povo sofrido. Sabia
ser um deles entre eles. Seja pedalando em sua bicicleta sob o sol
causticante, seja partilhando da vida nos casebres, alimentando a
esperança, inspirando coragem, consciência e fé.
Ele amou profundamente essa região e sua gente.
E em especial os índios. A
eles dedicou o melhor de suas forças, até o último dia de sua vida, que
passara com eles em Sagarana. Merecidamente irá entre eles repousar, qual
guerreiro que combateu o bom combate e terminou sua carreira, à beira do
Guaporé.
Em nome de todos os missionários que lutam junto aos povos indígenas neste
país, através do Cimo, queremos externar nosso profundo reconhecimento a
esse nosso irmão maior no testemunho e na fé, e a todos os amigos e
companheiros da diocese de Guajará Mirim que continuam a obra através da
presença e apoio solidário aos povos indígenas e toda a população
ribeirinha e das cidades da região.
Em especial aos Wari queremos externar nossa solidariedade por perderem um
grande amigo, mas que com eles ficará no testemunho e na memória de todos
os que trabalharam e continuarão trabalhando com eles.
Em nome da
Presidência do Cimi.
Egon D. Heck
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